Este texto é informativo e não substitui uma avaliação psicológica ou médica individualizada.
Às vezes, convivemos tanto tempo com determinada experiência que começamos a confundi-la com quem somos.
Uma pessoa que sente ansiedade frequentemente pode passar a dizer: “Eu sou assim mesmo. Sempre fui ansioso. Não consigo fazer certas coisas”.
A princípio, essa parece apenas uma maneira de descrever a própria experiência.
Mas existe uma diferença importante entre reconhecer uma característica pessoal e acreditar que nossos pensamentos, sentimentos e dificuldades definem tudo o que somos capazes de viver.
A ansiedade pode influenciar profundamente a maneira como alguém se percebe. Entretanto, nossa relação com ela não precisa permanecer sempre igual.
Quando a ansiedade passa a fazer parte da maneira como nos definimos
Algumas pessoas apresentam maior tendência a experimentar ansiedade em diferentes situações.
Na Psicologia, características relativamente estáveis relacionadas à predisposição para respostas ansiosas podem ser estudadas por meio de conceitos como ansiedade-traço.
Por isso, não seria correto afirmar que ninguém pode ser uma pessoa ansiosa e que todos apenas ficam ansiosos ocasionalmente.
Existem diferenças individuais importantes.
Entretanto, reconhecer uma característica não significa transformá-la em uma definição completa de identidade.
Uma pessoa pode apresentar ansiedade frequente e, ainda assim, desenvolver novas maneiras de lidar com situações, participar de experiências importantes e modificar comportamentos que estejam restringindo sua vida.
Quando acreditamos em tudo o que pensamos
Imagine alguém que precisa tomar uma decisão importante.
Diante da possibilidade de errar, surge o pensamento: “Eu não sou capaz”.
Essa frase pode aparecer acompanhada de medo, insegurança e lembranças de experiências anteriores.
Em alguns momentos, a pessoa percebe esse pensamento como uma possibilidade entre outras.
Em outros, passa a tratá-lo como uma descrição definitiva de si mesma.
A partir daí, deixa de considerar oportunidades, evita escolhas e interpreta novas dificuldades como confirmação de que realmente não é capaz.
O pensamento deixa de ser apenas uma experiência mental.
Passa a orientar o comportamento como se fosse uma verdade incontestável.
O que é fusão cognitiva?
Na Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), a fusão cognitiva se refere a um processo no qual o conteúdo dos pensamentos exerce influência dominante sobre o comportamento, como se aquilo que pensamos correspondesse diretamente à realidade.
Isso não significa que todo pensamento seja falso.
Também não significa que precisamos desconfiar permanentemente da nossa mente.
Pensamentos são importantes para avaliar situações, planejar e tomar decisões.
A dificuldade aparece quando nossa relação com determinados conteúdos mentais se torna tão rígida que outras informações e possibilidades deixam de ser consideradas.
Por exemplo, pensar “vou passar vergonha” antes de uma apresentação não significa que a experiência acontecerá dessa maneira.
Entretanto, quando a pessoa se relaciona com esse pensamento como uma certeza, pode acabar evitando a apresentação.
O que é desfusão cognitiva?
A desfusão cognitiva envolve desenvolver uma relação diferente com os pensamentos.
Em vez de precisar obedecer automaticamente ao que aparece na mente, a pessoa pode aprender a reconhecer pensamentos como acontecimentos psicológicos.
Isso não exige eliminá-los, substituí-los por afirmações positivas ou convencer-se de que são sempre incorretos.
Significa perceber que um pensamento pode estar presente sem determinar necessariamente o que será feito.
Por exemplo, existe uma diferença entre:
“Eu não consigo enfrentar essa situação.”
E:
“Estou tendo o pensamento de que não consigo enfrentar essa situação.”
A segunda formulação não resolve automaticamente o problema.
Mas pode criar alguma distância entre a experiência de pensar e a decisão de agir.
Esse espaço pode ajudar a pessoa a considerar o contexto, suas necessidades e aquilo que considera importante.
Desfusão cognitiva é a mesma coisa que eu como contexto?
Não.
Embora estejam relacionados dentro da ACT, são processos diferentes.
A desfusão diz respeito à maneira como nos relacionamos com pensamentos, reduzindo sua influência rígida sobre o comportamento.
O processo chamado eu como contexto envolve a capacidade de assumir uma perspectiva a partir da qual diferentes experiências podem ser observadas, sem que a identidade precise ser reduzida ao conteúdo momentâneo de pensamentos, sentimentos ou avaliações pessoais.
Não significa descobrir uma essência interior imutável.
Também não significa afastar-se emocionalmente da própria vida.
Trata-se de desenvolver flexibilidade na maneira de observar e responder às experiências internas.
Pensamentos e emoções dizem algo sobre nós?
Podem dizer muitas coisas.
Nossos pensamentos podem expressar preocupações, lembranças, desejos, interpretações e aprendizagens.
As emoções também oferecem informações relevantes sobre necessidades, valores e circunstâncias.
Mas nenhuma experiência isolada resume toda a complexidade de uma pessoa.
Sentir medo não significa ser incapaz.
Pensar que algo dará errado não garante que isso acontecerá.
Experimentar insegurança não significa que todas as decisões devam ser adiadas.
Da mesma forma, reconhecer pensamentos e emoções não significa ignorá-los.
É possível levar essas experiências a sério sem tratá-las como ordens ou descrições definitivas da realidade.
A ansiedade pode mudar nossa maneira de viver
Quando a ansiedade é intensa, podemos começar a organizar nossas escolhas em torno da necessidade de evitá-la.
Recusamos convites, adiamos decisões, controlamos excessivamente situações ou deixamos de experimentar acontecimentos importantes.
Com o tempo, essas limitações podem influenciar a maneira como nos descrevemos.
A pessoa deixa de dizer apenas “tenho medo de falar em público” e passa a acreditar que “não sou alguém que consegue se expressar”.
Essa mudança na linguagem pode refletir uma mudança mais ampla na percepção de si.
A psicoterapia pode ajudar a compreender essa relação entre pensamentos, emoções, comportamentos e identidade.
O que significa desenvolver flexibilidade psicológica?
A flexibilidade psicológica envolve a possibilidade de entrar em contato com a experiência presente e ajustar o comportamento conforme as circunstâncias e os valores pessoais.
Isso inclui reconhecer pensamentos e emoções sem depender necessariamente de sua eliminação para agir.
Também envolve considerar o contexto e fazer escolhas coerentes com aquilo que importa.
Por exemplo, uma pessoa pode continuar sentindo ansiedade diante de uma situação social, mas desenvolver maneiras de participar quando essa experiência corresponde aos seus objetivos.
Em outro momento, pode reconhecer que precisa estabelecer limites ou se afastar de uma circunstância prejudicial.
Flexibilidade não significa enfrentar tudo.
Significa ampliar a capacidade de responder de maneira sensível ao contexto, em vez de agir sempre segundo a mesma regra.
Você é mais do que aquilo que sente agora
Pensamentos e emoções fazem parte da nossa experiência.
Alguns podem aparecer frequentemente e influenciar profundamente a maneira como vivemos.
Mas isso não significa que toda a nossa identidade precise estar organizada em torno deles.
Podemos reconhecer características pessoais sem transformá-las em limites absolutos.
Podemos compreender nossa história sem concluir que ela determina integralmente o futuro.
E podemos continuar convivendo com ansiedade enquanto desenvolvemos novas possibilidades de escolha.
Conclusão
A ansiedade pode influenciar a maneira como alguém pensa sobre si mesmo.
Quando pensamentos de incapacidade, inadequação ou perigo passam a ser tratados como verdades definitivas, escolhas importantes podem ficar limitadas.
A desfusão cognitiva oferece uma maneira de compreender e trabalhar essa relação com os pensamentos.
Já o eu como contexto se refere a uma perspectiva mais ampla de observação das experiências, sem reduzir a pessoa ao conteúdo delas.
Esses processos fazem parte da flexibilidade psicológica estudada na Terapia de Aceitação e Compromisso.
O objetivo não é negar características pessoais ou afirmar que a ansiedade desaparecerá.
É reconhecer que pensamentos, sentimentos e padrões de comportamento não precisam determinar todas as possibilidades da nossa vida.
Quando essa identificação rígida com pensamentos e emoções contribui para o sofrimento, a psicoterapia pode ajudar a desenvolver outras formas de se relacionar com essas experiências.
Na minha atuação, recursos da ACT podem ser integrados ao trabalho orientado pela Terapia Cognitivo-Comportamental e pela Psicologia Baseada em Evidências, considerando a história, as necessidades e o contexto de cada pessoa.
Se você percebe que a ansiedade tem limitado suas escolhas ou influenciado negativamente a maneira como se vê, pode conhecer minha proposta de psicoterapia online e entrar em contato pelo site.
Referências para aprofundamento
- Hayes, S. C., Strosahl, K. D. e Wilson, K. G. (2012). Acceptance and Commitment Therapy: The Process and Practice of Mindful Change. 2ª edição. Guilford Press
- Association for Contextual Behavioral Science. About ACT
- Association for Contextual Behavioral Science. Self as Context
- Association for Contextual Behavioral Science. Cognitive Defusion in Practice